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“Pode ajudar, mas não é solução única”, diz presidente da ARA Jabuticabeiras sobre vacina contra cocaína

Publicado em 25/02/2026 às 15:01 por Editoria Movimento Saúde

A cocaína e o crack seguem como dois dos maiores desafios da saúde pública brasileira. O impacto vai além do usuário: atinge famílias, pressiona hospitais, aumenta a violência e amplia a vulnerabilidade social. Em meio a esse cenário, uma notícia reacende o debate nacional: a vacina brasileira contra a dependência de cocaína deve iniciar testes em humanos ainda este ano.

A Calixcoca, desenvolvida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), acaba de receber novo impulso institucional. O Governo de Minas Gerais destinou pouco mais de R$ 18 milhões para a etapa clínica do projeto, enquanto o Ministério da Educação confirmou que o tratamento — já patenteado internacionalmente — está em fase final de documentação para o início dos testes em humanos. A expectativa é que a Fase 1, que avalia principalmente a segurança da aplicação, comece ainda este ano.

Para entender o que isso significa na prática, conversamos com o presidente da ARA Jabuticabeiras, o terapeuta Rodrigo Cardoso, que trabalha diretamente com dependentes químicos em recuperação. Ele afirma que ainda se sabe pouco sobre a vacina.

Segundo Rodrigo, a proposta é que o tratamento funcione como complemento, não substituto das terapias já existentes. “Ela agiria tirando o efeito que o crack e a cocaína provocam. A ideia é que, caso o dependente já em recuperação tenha uma recaída, a vacina bloqueie o sistema de recompensa do cérebro”, explica.

A tecnologia funciona estimulando o organismo a produzir anticorpos que se ligam à molécula da cocaína na corrente sanguínea. Assim, a droga teria dificuldade de atravessar a barreira hematoencefálica e atingir o cérebro com intensidade suficiente para gerar euforia. Em teoria, isso poderia reduzir o reforço químico que alimenta o ciclo da dependência.

Rodrigo vê potencial, inclusive, em casos específicos como o de gestantes dependentes, onde a redução do impacto da droga poderia representar um ganho significativo para a saúde materna e fetal. No entanto, ele faz alertas importantes. Um deles é o risco de a vacina ser tratada como solução mágica. “Ela seria apenas uma parte do tratamento”, reforça. CAPS, grupos de apoio e programas já consolidados continuam sendo fundamentais.

Outra preocupação levantada é comportamental. A vacina não eliminaria o desejo de usar a droga — apenas bloquearia seus efeitos. Isso pode gerar dois riscos: usuários aumentarem a dose na tentativa de superar o bloqueio, o que pode levar à overdose, ou migrarem para outras substâncias. “É preciso cuidado para que essa inovação não seja usada como cortina de fumaça, desviando atenção e investimento de políticas públicas que já funcionam”, alerta Rodrigo.

Do ponto de vista científico e regulatório, a vacina ainda precisa comprovar segurança e eficácia em humanos antes de qualquer aprovação ampla pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A Fase 1 é apenas o primeiro passo de um caminho que inclui novas etapas de avaliação clínica.

Se os resultados forem positivos, a Calixcoca pode inaugurar uma nova estratégia no enfrentamento da dependência química no Brasil — não como solução isolada, mas como ferramenta adicional dentro de uma rede de cuidado. Por enquanto, o que se tem é expectativa, investimento público significativo e o início de uma etapa decisiva.

A pergunta que permanece é simples e poderosa: a ciência conseguirá, de fato, neutralizar o efeito da cocaína antes que ela continue neutralizando vidas?


 

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