Quinta-feira, 3 de abril de 2025 Login
No consultório de psicoterapia, encontramos histórias de dor, superação e resiliência. Algumas delas envolvem um tipo específico de perseguição pós-relacionamento que pode se transformar em um verdadeiro tormento para a vítima. O caso que relato a seguir, respeitando o sigilo profissional e mantendo a identidade da paciente em anonimato, traz à tona a triste realidade de muitas mulheres que, mesmo após uma separação definitiva, continuam a ser alvo da obsessão e do desejo de vingança de seus ex-companheiros.
O Relato da Paciente: Perseguição e Calúnia
Minha paciente, uma mulher forte e determinada, chegou ao consultório exausta, emocionalmente abalada, mas com uma certeza inabalável: ela queria paz. Seu casamento havia terminado há anos, um encerramento que, segundo ela, não foi apenas necessário, mas uma questão de sobrevivência emocional. Seu ex-marido era um homem misógino, controlador e obsessivo. A relação havia sido marcada por ciúmes doentios, manipulação psicológica e um padrão constante de abusos emocionais.
No entanto, mesmo após o fim da relação e com ambos reconstruindo suas vidas – ele, inclusive, casado novamente –, sua perseguição não cessou. Pelo contrário: ele encontrou na nova parceira uma cúmplice para alimentar seu desejo de vingança.
Juntos, passaram a atacá-la de diversas formas:
Ela vivia sob constante estresse, atormentada pela presença invisível, mas sufocante, de seu passado. Ela só queria seguir sua vida, mas parecia que, para o ex-marido e sua nova mulher, essa liberdade era algo inaceitável.
A Psicodinâmica do Ex-Marido: Obsessão e Narcisismo
O comportamento desse homem revela muito sobre seu perfil psicológico. Ele não lidava com a separação como um término natural de um ciclo, mas como uma afronta ao seu ego. Homens como ele não aceitam que uma mulher possa ser feliz sem eles, muito menos que tenha sido capaz de expulsá-los de sua vida.
Seu ciúme obsessivo, sua misoginia e seu padrão abusivo indicam características de personalidade narcisista e traços de transtorno obsessivo-compulsivo no que diz respeito ao controle sobre a vida da ex-parceira. Para ele, a separação não foi um rompimento, mas um desafio, e a perseguição se tornou uma forma de manter um elo, ainda que tóxico, com a mulher que já não o queria.
No entanto, o que chama a atenção nesse caso é a participação ativa da nova parceira.
A Nova Companheira: Cúmplice ou Vítima?
A nova esposa desse homem poderia ter sido uma testemunha neutra, alguém que trouxesse a ele a oportunidade de recomeçar. Mas, em vez disso, ela se tornou sua maior aliada na vingança.
Em uma dinâmica doentia, ela comprou a versão do marido, assumindo seu ressentimento como se fosse dela. Mulheres que aceitam esse papel geralmente apresentam algumas características psicológicas preocupantes:
O mais cruel nesse cenário é que, enquanto a paciente tentava seguir com sua vida, a nova parceira se unia ao ex-marido para manter viva uma guerra que já deveria ter terminado há muito tempo.
Aconselhamento e Estratégias para Superação
Diante desse quadro, minha principal missão como psicoterapeuta foi ajudá-la a recuperar sua sanidade emocional, se fortalecer e retomar o controle sobre sua vida. Trabalhamos com uma abordagem multidisciplinar, unindo estratégias psicológicas e práticas jurídicas.
As etapas do processo de superação foram as seguintes:
1. Reforçar o Posicionamento e a Indiferença
O primeiro passo foi ajudá-la a entender que não há como mudar o comportamento obsessivo do ex-marido e de sua atual esposa. O que poderia ser feito era fortalecer seu posicionamento e adotar a indiferença estratégica. Cada resposta, cada reação alimentava a obsessão deles. O silêncio e a firmeza seriam seus maiores aliados.
2. Medidas Legais: Quebrando o Ciclo de Impunidade
Mesmo que o ex-marido utilizasse a Justiça para atacá-la, foi fundamental que ela também recorresse a medidas legais para se proteger:
3. Blindagem Emocional e Reconstrução da Identidade
Além da questão jurídica, a paciente precisou fortalecer seu psicológico para que essa perseguição não continuasse a minar sua saúde mental. Trabalhamos com técnicas de terapia cognitivo-comportamental para ajudá-la a:
4. A Compreensão Final: O Passado Não Pode Definir o Futuro
O ponto mais importante do processo terapêutico foi ajudá-la a compreender que essas pessoas não tinham poder sobre sua vida a menos que ela permitisse. Seus ataques e obsessões eram apenas reflexos da mediocridade deles, e seu maior triunfo seria viver bem, ser feliz e ignorá-los completamente.
Conclusão: A Verdadeira Vitória Está no Desapego
Ao final do processo terapêutico, minha paciente conseguiu retomar o controle da própria vida, sem permitir que essas sombras do passado continuassem a atormentá-la. O ex-marido e sua cúmplice podem continuar em sua guerra particular, alimentando suas frustrações e seus ressentimentos, mas ela escolheu a liberdade.
E essa é a lição mais importante para qualquer pessoa que passe por algo semelhante: seguir em frente é a maior vingança que se pode dar a quem se alimenta de ódio. O passado pode gritar, espernear e tentar se infiltrar de todas as formas, mas quando a resposta é o desprezo, ele perde sua força.
Hoje, ela vive em paz. Não porque os ataques cessaram, mas porque se tornaram irrelevantes. O que antes a feriu, agora é apenas um eco distante de uma vida que ela escolheu nunca mais reviver. E essa é a verdadeira vitória.
Dra. A. C. S. é psicóloga, psicoterapeuta e mestre e doutora em comportamento humano, com vasta experiência em transtornos emocionais, relacionamentos abusivos e dinâmica das relações interpessoais. Professora universitária e referência na área, dedica-se ao estudo dos impactos psicológicos do assédio moral e emocional, auxiliando pacientes na reconstrução de sua autoestima e no fortalecimento de sua autonomia. Seu trabalho é reconhecido por sua abordagem humanizada e eficaz, ajudando inúmeras pessoas a superarem traumas e a retomarem o controle de suas vidas.
O nome completo da autora foi retirado à pedido para garantia do sigilo profissional-paciente.
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