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Adolescentes que nunca experimentaram cigarros tradicionais sentem-se atraídos pelos cigarros eletrônicos, que estão disponíveis em mais de 1.500 sabores vaporizáveis

Foto: Divulgação

Riscos do uso de cigarros eletrônicos por adolescentes

Publicado em 16/10/2020 às 09:37 por Cléo Neres

Apesar de o número de adolescentes tabagistas ter se reduzido nas últimas décadas, um novo fenômeno vem se tornado popular nesta faixa etária: o uso do cigarro eletrônico, também conhecido como vaping.

Trata-se de dispositivos que produzem um aerossol a partir de solução contendo nicotina, flavorizantes e outras aditivos.

Inicialmente eles foram anunciados como auxiliares na cessação do tabagismo, porém hoje acredita-se que aumentem o risco de tabagismo futuro. Além disso, o uso de cigarros eletrônicos está associado a uma nova condição clínica nomeada de Injúria Pulmonar Relacionada ao Uso de Cigarro Eletrônico (em inglês E-cigarette Vaping Associated Lung Injury -EVALI).

O uso de cigarros eletrônicos e outros dispositivos vaporizadores aumentou vertiginosamente entre os adolescentes. Estudos apontam que o surgimento desses dispositivos contribuiu para aumentar a exposição dos adolescentes à nicotina.

Adolescentes que nunca experimentaram cigarros tradicionais sentem-se atraídos pelos cigarros eletrônicos, que estão disponíveis em mais de 1.500 sabores vaporizáveis.

Um estudo nos EUA com adolescentes de 12-17 anos mostrou que 81% deles foram estimulados a fumar em função da disponibilidade de produtos saborizados.

Essa doença, descrita inicialmente em 2019, cursa com sintomas constitucionais, gastrointestinais e respiratórios, incluindo hipoxemia e infiltrados bilaterais. Nas primeiras séries de caso a EVALI foi mais comum no sexo masculino e naqueles que fizeram uso de Tetrahidrocanabinol (THC), e se manifestou de forma grave, com 95% dos pacientes necessitando de internação. Atualmente acredita-se que o principal mecanismo patológico seja um efeito do acetato de vitamina E, utilizado como diluente nos produtos de THC, que afetaria o surfactante prejudicando a capacidade do pulmão de manter a tensão superficial adequada.

Estudo recente sobre o uso de cigarro eletrônico por adolescentes

Apesar de crianças e adolescentes serem o grupo de usuários de cigarros eletrônicos que mais cresce atualmente, pouco ainda se conhece sobre EVALI nesta faixa etária. No estudo Characterizing E-Cigarette Vaping Associated Lung Injury (EVALI) in the Pediatric Intensive Care Unit, de Reddy e colaboradores, foram analisados retrospectivamente os prontuários de pacientes < 21 anos admitidos na Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Children’s Hospital of Philadelphia com quadro suspeito ou confirmado de EVALI conforme critérios do CDC.

Casos confirmados são definidos como paciente que fez uso de cigarro eletrônico nos 90 dias anteriores ao início dos sintomas, apresenta infiltrados na radiografia de tórax ou vidro fosco na tomografia computadorizada (TC), e não apresenta infecção pulmonar ou outros diagnósticos alternativos (doença cardíaca, reumatológica ou neoplásica). Já um caso provável é definido com os mesmos critérios exceto pela detecção de infecção associada, porém que a equipe clinica não acredite ser a única responsável pela doença respiratória

Resultados

Entre agosto de 2019 e janeiro de 2020 foram identificados seis pacientes admitidos na UTIP com EVALI. A idade média foi de 18 anos (tendo o mais jovem 14 anos), 50% eram do sexo masculino e 50% tinham diagnóstico prévio de asma. Além disso, 4 pacientes tinham histórico prévio de doença psiquiátrica. Todos relataram uso tanto de nicotina quanto de THC, e a frequência de uso do cigarro eletrônico variou de diário a uma vez por semana.

Todos os pacientes se apresentaram com dispneia, febre, náusea/vômitos e dor abdominal. Dois também relataram perda ponderal e apenas um referiu dor torácica. Em relação aos exames complementares, todos apresentaram alcalose respiratória e lactato normal. Cinco pacientes apresentaram leucocitose (11-29,6 mil leucócitos/uL). As culturas bacterianas de secreção respiratória foram negativas nos seis pacientes e dois pacientes tiveram rinovírus detectado no painel viral.

Todos os pacientes foram submetidos a radiografia de tórax, que evidenciaram infiltrados bilaterais difusos. Dois apresentaram ainda sinais de extravasamento de ar (pneumomediastino, enfisema subcutâneo ou pneumotórax). Quatro pacientes foram também submetidos a TC de tórax, que mostrou espessamento de septos intralobulares e vidro fosco difuso.

Em relação ao manejo clínico, todos necessitaram de ventilação não invasiva, com um evoluindo para ventilação mecânica. Todos receberam antibióticos de amplo espectro e corticoides endovenosos, não houve nenhum óbito.

Conclusões

O estudo sugere que a apresentação de EVALI possa ter particularidades em adolescentes. Apesar da apresentação clinica ser muito similar ao que a literatura descreve em adultos, com predominância de tosse, febre, dispneia e sintomas gastrointestinais, a dor torácica não foi proeminente, possivelmente devido a baixa incidência de comorbidades cardiovasculares nesta faixa etária. Além disso, é necessário o estudo mais profundo de possíveis associações entre doenças psiquiátricas e asma e o desenvolvimento de EVALI. As principais limitações do estudo foram o pequeno tamanho da amostra, que limita a possibilidade de aplicar os achados para a população geral. Além disso por se tratar de estudo retrospectivo, há limitação dos dados que puderam ser coletados.

 

Fonte: PEBMED

Autor(a): Viviane Mauro Corrêa Meyer

Graduada em Medicina pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) ⦁ Residência em Pediatria pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro ⦁ Especialização em Pneumologia Pediátrica pelo Instituto Fernandes Figueira. Mestre em Medicina pela Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) ⦁ Médica do Hospital Israelita Albert Einstein e preceptora do internato da Graduação em Medicina da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

Referências Bibliográficas

Reddy A, Jenssen B, Chidambaram A, Yehya N, Lindell RB. Characterizing E-Cigarette Vaping Associated Lung Injury (EVALI) in the Pediatric Intensive Care Unit. Pediatr Pulmonol. 2020 Sep 24. doi: 10.1002/ppul.25086.

 

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