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Impacto da eutanásia animal na saúde mental dos profissionais

Publicado em 24/01/2022 às 10:11 por Editoria Movimento Saúde

Chega um momento na vida em que se esgotam os recursos para a manutenção de uma existência saudável. É assim com todos os seres vivos. Mas, no mundo animal, existe a opção de colocar um fim ao sofrimento. Quando chega ao extremo, em muitos casos, a única opção é a eutanásia.

É comum pensarmos no que isso representa para o dono do animal, em especial os animais domésticos, já considerados parte da família. É uma dor que atinge a todos. E raras vezes (ou nunca) paramos para pensar no impacto que a eutanásia representa para a saúde mental do veterinário.

Esse impacto é tema de um artigo, publicado pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), na revista da entidade. 

Escrito por três médicos veterinários e uma psicóloga, o material usa como base um questionário online, aplicado a profissionais que realizam ou já realizaram eutanásia durante sua rotina clínica, para avaliar as prováveis implicações da prática na saúde mental, além de identificar lacunas sobre o tema na formação profissional.

Trazer esse debate é oportuno, já que estamos no Janeiro Branco, campanha que chama a atenção para o tema da saúde mental.

Despreparo para lidar com morte

A indicação da eutanásia é feita com base em avaliação minuciosaA eutanásia animal é circundada por questões afetivas e preocupações morais, sendo um processo emocionalmente desgastante e estressante. Entre os entrevistados, a maioria (90%) acredita não ter sido preparada para lidar com a morte de seus pacientes e 89% reconhecem que a prática pode ter influência em sua saúde mental. “A primeira vez ou as primeiras vezes são especialmente difíceis, pelo despreparo profissional e emocional. A gente fica comovido", conta o médico veterinário Dr. Nestor Lorca dos Santos Garnés (CRMV 9946).

Ele explica que a indicação da eutanásia é feita com base em avaliação minuciosa do quadro clínico do animal, tendo se esgotado todas as possibilidades de tratamento, mas ainda assim, é uma decisão difícil para o profissional. “O procedimento é indicado quando o animal se encontra extremamente debilitado pela evolução de uma doença, muitas vezes incurável, não tendo respondido positivamente a várias tentativas de tratamento, o que leva ao extremo sofrimento, de forma que essa seja a única solução”, esclarece. “Diante disso, resta ao médico veterinário conversar com os tutores, explicar a situação e sugerir a eutanásia”, pondera.

A decisão final é sempre do tutor, mas não tem como não se abater. “Para o veterinário é um momento difícil, por não ter conseguido curar ou promover uma vida com melhor qualidade. Constatar que o animal não reage clinicamente, chegando a esse extremo, me deixa triste”, admite Nestor.

Acompanhar o procedimento é uma opção dada aos tutores, e cada um reage de forma mais ou menos sofrida.

Experiência marcante

Nestor e Chica, sua Border Collie de estimaçãoTodo procedimento de eutanásia tem uma carga de sofrimento, mas algumas histórias são mais marcantes. Nestor conta uma das situações mais tocantes em sua vida profissional. "O tutor, um senhor de idade, vivia sozinho, tinha no seu pet de estimação sua única companhia. A vida dele era aquele animal, dava pra ver isso”, afirma. “Todos têm sentimentos, claro, mas em se tratando deu um senhor de idade, quando teve que realizar a eutanásia, ele não se conteve, chorava e dizia que havia perdido seu melhor amigo. A vida do animal estava nas minhas mãos, mas não tinha o que fazer, eu estava ciente de que era o melhor a ser feito, mas para ele era a perda do seu pet, aquele estava o tempo todo ao seu lado. Foi especialmente difícil", recorda, com certa tristeza.

Embora a tristeza pela morte faça parte da profissão, Nestor alega que, com o tempo, o veterinário aprende a suportar. “Temos que ter o cuidado para não absorver tudo, porque isso pode acabar interferindo muito nos próximos atendimentos e procedimentos necessários. A tristeza bate, mas temos que ser fortes, até para evitar de entrar em quadro de depressão, por se sentir incapaz diante da fatalidade”, diz o médico, formado há 12 anos. “Com o passar do tempo, a gente vai desenvolvendo um quadro de frieza, por assim dizer, que é esperado que aconteça, mas a tristeza é inevitável diante do estado de sofrimento do animal, do estado emocional do tutor, e não podemos absorver”, reitera.

 

Abordagem superficial

78% dos veterinários afirmam não ser abordada de forma ampla a prática da eutanásia Dentre os participantes da pesquisa do Conselho Federal de Medicina Veterinária, 78% afirmaram não terem tido durante a graduação disciplinas que abordassem de forma ampla a prática da eutanásia e distanásia animal e 64% a consideram um procedimento difícil de ser realizado.

Os números tornam evidente o despreparo dos profissionais médicos-veterinários para lidar com a morte de seus pacientes, sendo inegável que a prática da eutanásia animal oferece riscos à sua saúde mental.

Na avaliação de Nestor Lorca dos Santos Garnés, durante a formação, talvez falte uma disciplina que ajude o futuro profissional a trabalhar essas emoções. “Na medicina veterinária o tema eutanásia é abordado de forma superficial, diferente do que o profissional vai enfrentar na realidade, quando se forma e vai encarar o dia a dia a campo e viver a situação, que causa realmente um impacto. O que nos é passado é a missão de salvar, sem se ater ao fato de que teremos de enfrentar com muita frequência a eutanásia na realidade”, aponta.

Uma das conclusões da pesquisa é a necessidade de traçar medidas que minimizem os impactos negativos causados pela eutanásia, que é uma prática necessária e ao mesmo tempo desgastante à saúde mental.

Fotos: arquivo pessoal Dr. Nestor Lorca/divulgação

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