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As crianças infectadas com o novo coronavírus geralmente apresentam um histórico de exposição familiar ou nas atividades escolares ou recreativas com outras crianças

Foto: Divulgação

Transmissão da Covid-19 por crianças: o que sabemos até agora?

Publicado em 22/09/2020 às 16:14

O retorno das atividades escolares ou em creches durante a atual pandemia de Covid-19 tem gerado inúmeras discussões sobre os cuidados para com as crianças e os riscos de infecção. Adicionalmente, o papel da criança na transmissão do SARS-CoV-2 tem também acentuado as preocupações e hipóteses sobre as melhores medidas a serem tomadas.

Covid-19 em crianças

As crianças infectadas com o novo coronavírus geralmente apresentam um histórico de exposição familiar ou nas atividades escolares ou recreativas com outras crianças, e transmissão por vias aéreas e trato gastrintestinal, assim como nos adultos.

A maioria dos infectados tem um curso assintomático e há descrição de inúmeros casos falso-negativos em testes moleculares nessa população. As que desenvolvem a Covid-19 clínica, apresentam febre e tosse, poucas apresentam alterações radiológicas significativas, e o prognóstico geralmente é favorável, em contraste com o curso da doença observado em neonatos.

Casos raros, como a descrição de uma nova síndrome inflamatória multissistêmica Kawasaki-like ainda suporta os cuidados necessários frente a doença nessa população. Por outro lado, devido ao carater assintomático a leve/moderado da Covid-19, as crianças consistem em potenciais transmissores da doença para familiares contactantes e outras crianças.

Dentre as diferentes hipóteses para a predominância de quadros leves da doença em crianças, alguns estudos sugerem que:

  • (i) as crianças > 12 meses já começam a desenvolver células T de memória para diversos vírus respiratórios frequentes que podem gerar resposta imune cruzada ao SARS-CoV-2;
  • (ii) as vacinas administradas a curto prazo prévio poderiam favorecer a imunidade para Covid-19;
  • (iii) o sistema imune em crianças ainda está em processo de maturação, em desenvolvimento, o que pode estar relacionado à resposta inflamatória parcial à infecção por SARS-CoV-2 resultando em casos leves (Patel et al., 2020; Zhou et al. 2020).

Transmissão em creches

Como exemplo da dinâmica de transmissão de SARS-CoV-2 a partir de creches, Lopes e cols. (2020) descreveram três surtos ocorridos no condado de Salt Lake, Utah, EUA entre abril a julho de 2020. Os 184 indivíduos, incluindo 110 (60%) crianças, tinham um link epidemiológico com uma das três creches, sendo que 31 apresentaram Covid-19 confirmado por testes moleculares.

Os pacientes pediátricos apresentaram formas assintomáticas ou leves, 12 crianças adquiriram a infecção por SARS-CoV-2 nas instituições. A transmissão pediátrica para adultos foi caracterizada em 12 (26%) dos contactantes não frequentadores da instituição (total de 46 confirmados ou prováveis). Seis desses casos ocorreram em pais e 3 em irmãos. Em uma das creches, uma criança de 8 meses transmitiu o vírus para ambos os pais.

A origem sugerida desses casos nas creches consiste em staff de duas creches que tiveram contato domiciliar com casos prováveis ou confirmados de Covid-19 sintomáticos e foram trabalhar, disseminando para as crianças, e seguindo a cadeia de transmissão. O condado de Salt Lake apresentou 17 creches com pelo menos 2 casos confirmados de COVID-19 no período estudado.

Pacientes com < 16 anos

Posfay-Barbe e cols (2020) avaliaram os casos pediátricos de infecção por SARS-CoV-2 em pacientes < 16 anos no período de março a abril de 2020, registrados na rede de vigilância do Geneva University Hospital, Suíça, e seus contactantes. Dentre os 39 pacientes com a faixa etária citada positivos para SARS-CoV-2, verificou-se que em 79% (31/39) dos casos de doença infantil, os adultos contactantes (pais ou irmãos) eram casos suspeitos ou confirmados de COVID-19 previamente ao aparecimento dos sintomas nas crianças ou adolescentes. Em 8% dos casos (3/39), os pacientes pediátricos apresentaram sintomas anteriores aos adultos contactantes.

Na revisão apresentada por Lee & Raszka (2020), os autores defendem a hipótese de que o potencial transmissor de crianças para adultos é pequeno, com poucos casos extradomiciliares, sem evidência de casos secundários nos estudos citados. Sugere-se que devido ao quadro assintomático ou leve na população infantil, os quadros de tosse seriam menos frequentes, com menor disseminação de partículas aéreas.

Adicionalmente, Kuttiatt et al. (2020) relembram que o fechamento prolongado de instituições educacionais infantis reflete em efeitos negativos psicossociais para as crianças, além dos efeitos secundários e econômicos familiares. O desenvolvimento infantil não pode ser substituído definitivamente por plataformas virtuais de ensino ou por períodos longos, considerando especialmente devido à Covid-19 em crianças corresponder a menos de 2% dos casos totais na população.

Conclusões

Mediante tais controvérsias, os consensos internacionais, incluindo aqueles do Centers for Diseases Control and Prevention (CDC, Atlanta, EUA), mantém as recomendações sobre o uso de máscara, lavagem de mãos, limpeza e desinfecção frequente de superfícies, e isolamento em domicílio sempre que possível como adaptações importantes especialmente no manejo de crianças que não usam máscaras.

Os aspectos desses estudos podem ser observados nas referências abaixo.

Autor: 

M.D., PhD. ⦁ Médico ⦁ Microbiólogo ⦁ Professor Associado / Lab. Micobactérias, Depto. Microbiologia Médica, Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, Centro de Ciências da Saúde – Universidade Federal do Rio de Janeiro

Referências bibliográficas:

  • CDC. Coronavirus disease 2019 (COVID-19): guidance for child care programs that remain open. Atlanta, GA: US Department of Health and Human Services, CDC; 2020. https://www.cdc.gov/coronavirus/2019- ncov/community/schools-childcare/guidance-for-childcare.html.
  • Kuttiatt VS, Menon RP, Abraham PR, Sharma S. Should Schools Reopen Early or Late? – Transmission Dynamics of COVID-19 in Children. Indian J Pediatr. 2020 Sep;87(9):755-756.
  • Lee B, Raszka WV Jr. COVID-19 Transmission and Children: The Child Is Not to Blame. Pediatrics. 2020;146(2):e2020004879. doi:10.1542/peds.2020-004879
  • Lopez AS, Hill M, Antezano J, et al. Transmission Dynamics of COVID-19 Outbreaks Associated with Child Care Facilities — Salt Lake City, Utah, April–July 2020. MMWR Morb Mortal Wkly Rep 2020;69:1319–1323.
  • Patel NA. Pediatric COVID-19: Systematic review of the literature. Am J Otolaryngol. 2020;41(5):102573. doi:10.1016/j.amjoto.2020.102573.
  • Posfay-Barbe KM, Wagner N, Gauthey M, Moussaoui D, Loevy N, Diana A, L’Huillier AG. COVID-19 in Children and the Dynamics of Infection in Families. Pediatrics. 2020 Aug;146(2):e20201576.
  • Zhou MY, Xie XL, Peng YG, et al. From SARS to COVID-19: What we have learned about children infected with COVID-19. Int J Infect Dis. 2020;96:710-714. doi:10.1016/j.ijid.2020.04.090
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