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Os medos mais comuns são o medo da morte ou de ficar gravemente doente, de contaminar os outros ou das repercussões econômicas envolvidas

Foto: Divulgação

O impacto da pandemia de Covid-19 na saúde mental

Publicado em 19/10/2020 às 08:51 por Cléo Neres

Artigos recentes vêm discutindo mais um impacto causado pela pandemia da Covid-19: a chamada “coronophobia” (tradução livre para o português como “coronofobia”). Este termo vem sendo usado para designar o medo, a preocupação e a ansiedade de contrair o Covid-19, referindo-se também ao impacto psicológico e aos prejuízos funcionais provocados nas pessoas por esta doença.

Os medos mais comuns são o medo da morte ou de ficar gravemente doente, de contaminar os outros ou das repercussões econômicas envolvidas. A adoção de uma série de novos hábitos e medidas pode também contribuir para a intensificação dessa situação. Os quadros associados são ansiedade (incluindo pânico e ansiedade generalizada), depressão, angústia, comportamentos obsessivos, acumulação, paranoia, reações de evitação, sensação de desesperança, ideação suicida e atos consumados de suicídio.

Enquanto algumas dessas reações podem, a princípio, ser confundidas como comportamentos normais e esperados diante das circunstâncias correspondentes à pandemia, outras respostas são claramente prejudiciais e maladaptativas. Nestes casos as reações podem se cronificar ao invés de se abrandarem com o passar do tempo. Como consequência é possível observar o impacto sobre a procura por tratamentos psiquiátricos e o aumento da prescrição de psicofármacos. Através de 3 artigos recentemente publicados vamos entender um pouco mais sobre este assunto.

Compreendendo a situação

O termo “fobia” designa uma forma de transtorno ansioso no qual se vive as consequências de um medo intenso, persistente e, às vezes, desproporcional sobre um objeto, ser ou situação. Geralmente também é acompanhado por um comportamento de evitação de estímulos que possam desencadear ou piorar a ansiedade e o temor.

No caso da Covid-19, os artigos referem-se a uma preocupação excessiva com os sintomas fisiológicos, a necessidade de buscar medidas de reasseguramento, estresse relacionado à perdas sociais e ocupacionais e evitação (que envolve situações e lugares públicos, por exemplo). Os gatilhos que poderiam ativar essa fobia são relacionados à exposição de situações ou pessoas que aumentem a probabilidade de contrair o vírus (como sair de casa, ir trabalhar, encontrar pessoas, etc) e informações ou pensamentos sobre doenças infecciosas. Os trabalhos chegam a citar uma nova escala criada para avaliar seus sintomas: a Coronavirus Anxiety Scale.

Em relação à sua manifestação, podemos destacar 3 componentes principais ligados ao medo:

  • Fisiológico: o medo desencadeia uma reação de luta ou fuga. Os pacientes podem se referir a sintomas como tremores, palpitação, vertigem, alterações no sono e no apetite.
  • Comportamental: pode-se observar tanto a presença de comportamentos que reforcem ou chequem a segurança relacionada à saúde (ex: lavar as mãos com frequência ou checar os sinais vitais), como os comportamentos evitativos, já citados (evitam-se os transportes públicos, lugares fechados, encontrar pessoas, etc);
  • Cognitivo: podem surgir distorções cognitivas na forma de pensamentos disfuncionais (ex: “vou morrer se pegar o vírus” — isso não necessariamente é verdade); crenças irracionais; comportamentos maladaptativos e comprometimento da atenção. Por exemplo, alguns dos sintomas da Covid-19 são inespecíficos e a presença de alguns deles pode desencadear um quadro ansioso e a procura por atendimento médico repetido (ex: confusão com quadros alérgicos). Tudo isto, por sua vez, pode desencadear respostas emocionais, como tristeza ou raiva.

Até que ponto a preocupação está “dentro dos limites”

Obviamente o vírus está relacionado a problemas de saúde reais, sendo necessário seguir as medidas de segurança e orientações cabíveis dos respectivos órgãos de referência. Contudo, o que se discute aqui é como as alterações decorrentes desta situação podem comprometer o funcionamento da vida diária.

Agora vamos destacar os fatores de risco associados a esta condição, bem como aspectos relacionados ao desenvolvimento do quadro:

  • Interferência na vida rotineira;
  • O fato de se tratar de uma realidade imprevisível: precisamos de estabilidade para nos sentirmos seguros; quando isto é posto em cheque podem surgir sentimentos negativos;
  • A incerteza sobre quando essa situação irá acabar;
  • As dificuldades encontradas pelos serviços de saúde para lidar com a doença nos mais diversos locais (mesmo em países considerados “desenvolvidos”);
  • Sensação de vulnerabilidade frente à doença;
  • Algumas declarações pessimistas por órgãos internacionais de referência (ex: OMS e ONU);
  • O fato de pessoas famosas e figuras de liderança ficarem doentes (evidenciando nossa própria vulnerabilidade);
  • Presença de transtorno mental pré-existente: podendo seus sintomas ser exacerbados pelas medidas necessárias de isolamento social e quarentena (achados de epidemias anteriores reforçam que as medidas de contenção de uma doença podem contribuir também para o maior comprometimento da saúde mental da população);
  • A disseminação de uma grande quantidade de informação sobre a doença (sendo que nem todo esse conteúdo é verídico — fake news) e a interpretação dessas informações apreendidas, influenciadas por um contexto sociocultural;
  • O surgimento de novos comportamentos e necessidade de evitação de alguns hábitos (ex: usar máscara — não tocar o rosto).

No que diz respeito ao impacto dessa situação, outro estudo buscou avaliar o quanto a “coronofobia” seria capaz de explicar o sofrimento psicológico vivido durante a pandemia de Covid-19. Através de uma análise de regressão múltipla hierarquizada, demonstrou-se que a “coronofobia” explicou variações adicionais em quadros de depressão, ansiedade generalizada e ansiedade por medo da morte.

Também concluíram que os fatores relacionados à vulnerabilidade (neuroticismo, ansiedade relacionada à saúde e comportamentos que procurem reasseguramento) afetariam negativamente o bem-estar emocional durante a pandemia. Dentro desses sintomas, a presença de comportamentos de reasseguramento parece estar fortemente ligada à ansiedade sobre a saúde e “coronofobia”. Os autores validaram que pessoas com muita ansiedade relacionada a doenças infecciosas procuram repetidamente reassegurar-se de que não estão doentes durante a pandemia.

Outra consequência observada diz respeito a uma relutância dos pacientes a procurarem serviços de saúde para diagnóstico e tratamento de questões habituais, assim como apreensão ao retorno às atividades cotidianas.

Ainda é necessário considerar fazer um paralelo entre esta situação e o transtorno de ajustamento (ou adaptação), já discutido aqui no Portal). Este refere-se a uma resposta a estressores não necessariamente traumáticos (podem envolver mudanças, alterações no ambiente de trabalho, em resposta ao diagnóstico de uma doença, etc) associada a sofrimento muitas vezes desproporcional ao evento desencadeante.  Apesar de ainda haver poucos estudos sobre este transtorno, sua frequência parece ser relevante.

No geral os autores ressaltam que são necessárias mais pesquisas. Trabalhos com terapia cognitivo-comportamental oferecida através da internet já estão sendo realizados para avaliar a resposta dos pacientes com esta alteração. É possível que os resultados sejam publicados em breve.

Autor(a):

Psiquiatra pela UFF ⦁ Graduação em Medicina pela UFF

Referências bibliográficas:

  1. Watson J. Covid-19’s Psychological Impact Gets a Name. Medscape, September 29th, 2020. Disponível em: https://www.medscape.com/viewarticle/938253
  2. Lee SA, Jobe MC, Mathis AA, Gibbons JA. Incremental validity of coronaphobia: Coronavirus anxiety explains depression, generalized anxiety, and death anxiety. Journal of Anxiety Disorders. Volume 74, agosto de 2020. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0887618520300827?via%3Dihub
  3. Arora A, Jha AK, Alat P, Das SS. Understanding Coronophobia. Asian Journal of Psychiatry.2020;54. doi: 10.1016/j.ajp.2020.102384
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