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​​​​​​​Dia Internacional da Mulher: entre conquistas históricas e a dura realidade da violência no Brasil

Publicado em 08/03/2026 às 08:00 por Editoria Movimento Saúde

O Dia Internacional da Mulher convida à celebração de conquistas importantes, mas também expõe uma contradição que a sociedade brasileira ainda precisa enfrentar com coragem: enquanto cresce o discurso de valorização feminina e se ampliam os espaços ocupados pelas mulheres, os números da violência contra elas continuam avançando.

O país que reconhece a força feminina, que celebra lideranças e fala cada vez mais sobre igualdade, ainda convive com estatísticas alarmantes de agressões e mortes de mulheres.

Nas últimas décadas, as mulheres brasileiras transformaram profundamente sua presença na sociedade. Hoje são maioria nas universidades, ampliaram sua participação no mercado de trabalho e ocupam espaços cada vez mais relevantes na ciência, na gestão pública, na política e na produção de conhecimento. Essas conquistas foram construídas ao longo de gerações de luta por direitos civis, autonomia e reconhecimento.

Ao mesmo tempo, o Brasil permanece entre os países com índices preocupantes de violência contra a mulher. Dados recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que o país registra mais de 1.400 feminicídios por ano, o que representa, em média, quatro mulheres assassinadas por dia por razões de gênero. Pesquisas nacionais também mostram que milhões de brasileiras relatam sofrer algum tipo de violência todos os anos, incluindo agressões físicas, psicológicas, sexuais e patrimoniais.

Esses números não surgiram de forma repentina. Eles revelam uma realidade complexa, construída ao longo de décadas, em que avanços sociais convivem com resistências culturais profundas.

Nos últimos 25 anos, o Brasil deu passos importantes na construção de mecanismos de proteção. A Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, foi um marco ao reconhecer juridicamente a violência doméstica e criar medidas protetivas para mulheres em situação de risco. Em 2015, o feminicídio passou a ser tipificado como crime hediondo, reconhecendo que muitas mulheres são assassinadas por motivações relacionadas ao gênero.

Essas legislações ampliaram a visibilidade do problema e contribuíram para que mais mulheres procurassem ajuda. Hoje existe mais informação, mais canais de denúncia e mais redes de apoio do que havia há duas ou três décadas.

Esse avanço, por si só, já revela uma mudança importante: o silêncio que durante muito tempo encobriu a violência dentro de casa começa a ser rompido.

Mas o caminho ainda é difícil.

Denunciar um agressor, romper um relacionamento violento ou buscar proteção institucional muitas vezes significa enfrentar não apenas o medo, mas também o julgamento social. Em muitos contextos, a mulher que decide falar precisa lidar com perguntas que transferem para ela a responsabilidade pela violência sofrida: por que demorou tanto para denunciar, por que não saiu antes, por que manteve o relacionamento.

Esse tipo de questionamento revela que o problema não está apenas na violência em si, mas na cultura que por muito tempo a naturalizou.

Durante séculos, a sociedade construiu relações familiares baseadas em desigualdade de poder. O controle masculino sobre a vida da mulher — suas escolhas, seus comportamentos, sua liberdade — foi tratado como algo normal. Mesmo com as mudanças sociais das últimas décadas, muitos desses padrões ainda permanecem presentes no imaginário coletivo.

Grande parte dos feminicídios ocorre dentro de relações afetivas, frequentemente motivados por ciúme, possessividade ou inconformismo diante da autonomia feminina. Quando uma mulher decide encerrar um relacionamento, reconstruir a própria vida ou simplesmente exercer sua independência, isso pode desencadear reações violentas em indivíduos que ainda enxergam a relação como um espaço de domínio.

Por isso, enfrentar a violência contra a mulher exige mais do que leis e punições. Exige transformação cultural.

Nos últimos anos, as mulheres têm buscado cada vez mais redes de apoio, grupos de acolhimento, movimentos sociais e espaços de solidariedade. Essas iniciativas são fundamentais para romper o isolamento que muitas vítimas enfrentam e para oferecer suporte emocional, jurídico e social.

Mas essas redes ainda precisam superar um desafio importante: o preconceito que, em alguns contextos, também se reproduz entre mulheres. Durante muito tempo, padrões culturais estimularam competição, julgamento moral e desconfiança entre elas. Desconstruir esse comportamento significa fortalecer a empatia, a escuta e a capacidade de acolher a experiência da outra sem julgamento.

Construir uma sociedade mais segura para as mulheres passa necessariamente por esse fortalecimento coletivo.

Também exige investimento em educação, diálogo dentro das famílias, formação nas escolas e políticas públicas consistentes. Relações baseadas em respeito e igualdade precisam ser ensinadas desde cedo. A transformação cultural começa quando meninos e meninas aprendem que liberdade, dignidade e respeito são valores fundamentais nas relações humanas.

O Dia Internacional da Mulher, portanto, não é apenas uma data de reconhecimento. É também um momento de reflexão sobre o caminho que ainda precisa ser percorrido.

Se as últimas décadas foram marcadas por conquistas importantes, os próximos 25 anos precisarão ser dedicados a garantir que essas conquistas se traduzam em segurança real na vida das mulheres. Reduzir a violência de gênero é um desafio que exige compromisso coletivo, coragem para enfrentar padrões culturais antigos e disposição para construir novas formas de convivência.

O futuro será mais seguro para as mulheres quando a igualdade deixar de ser apenas um discurso e passar a ser uma prática cotidiana em todas as dimensões da sociedade.

Autora: ROSI RODRIGUES - JORNALISTA - ESPECIAL PARA O DIA DA MULHER

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